Ballet da Bola

Em 10/12/1962 a nova Seleção Soviética de futebol veio aprender o ballet da bola com os bicampeões mundiais.

Para o técnico da Seleção Soviética, a impressão depois do jogo com o Santos era a de que havia assistido a um verdadeiro espetáculo de “ballet” proporcionado pelo glorioso alvinegro praiano.

Para Mauro Ramos, os soviéticos eram onipresentes onde quer que estava a bola, graças a um preparo físico realmente extraordinário: “Como correm os homens.”

E o jogo foi isso mesmo: a URSS alardeando um folego impressionante e os brasileiros esbanjando classe e terminando por realizar perfeita “doutrinação” dos soviéticos em matéria de futebol, como ele deve ser jogado.

Bola no chão, passes de primeira, dribles desconcertantes e uma agressividade permanente, tudo sob o comando do maestro de recursos inesgotáveis,  o mago Pelé.

Na verdade, os soviéticos nunca esconderam sua intenção nesse giro pela América do Sul: aprender a jogar o melhor futebol do mundo (com os brasileiros), habituar-se a malícia dos sulamericanos, a fim de poder levantar o título olímpico de 64 em Tóquio e o Campeonato Mundial de 66, em Londres.

Com uma equipe inteiramente renovada, restando apenas três elementos da antiga seleção, os soviéticos começavam muito cedo o seu treinamento e, nesse ponto, não procuravam convencer ninguém com a sua doutrina futebolística.

Pelo contrário, o objetivo era serem doutrinados para evitar repetir em Tóquio e em Londres as decepções da Suécia e do Chile.

E, na primeira aula, o Santos Futebol Clube, que uma semana antes conquistara com larga antecipação o título de tricampeão paulista, exibiu do alto de sua cátedra o ballet da bola aos alunos soviéticos.

Estes, além da preocupação de aprender, tinham uma outra: não levar goleada.

Jogavam, pois, dentro de um esquema – baseado no folego e velocidade – no mais das vezes defensivo e de contra-ataques.

Ou melhor, jogavam assim, porque depois da doutrinação do Santos seu estilo iria mudar.



Ballet da Bola – Ficha Técnica

10/12/1962 Santos FC 2×1 URSS
Local: Pacaembu – São Paulo (SP)
Competição: Amistoso
Renda: Cr$ 9.469.500,00
Público: 27.839
A: João Etzel Filho

Gols: Coutinho 34′ e Pelé 78′ – Valery 12′

Santos: Laércio, Mauro Ramos e Zé Carlos; Dalmo, Calvet e Zito ; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe (Tite)
Tecnico: Lula

URSS: Kotrikadze; Gnodi, Mexey e Danilov; Stanislaw e Vassily; Oleg, Vicot, Yuri (Kanievsky), Anatole (Sabo) e Valery.
Técnico: Solovjev


BÔNUS

O dia em que o Santos parou a guerra fria!

Por Guilherme Nascimento

A Seleção da União Soviética estava no Brasil para alguns amistosos.

E pediram um contra o Santos FC, afinal, não apenas a Europa Ocidental (e Capitalista) que queria conhecer o melhor time do Mundo…os atletas da Socialista União Soviética também.

Para os dirigentes e atletas santistas não havia problema algum… seria uma boa bilheteria para os cofres de Vila Belmiro.

Mas, sempre há aqueles que teimam em misturar futebol com seus planos (mesquinhos) políticos…

A apresentação que seria no Rio de Janeiro, foi vetada por Lacerda…

E a cartolagem paulistana, representada pelas tristes figuras de Laudo Natel (SPFC – seria Governador do Estado indicado pelo Governo Militar), Wadih Helou (SCCP – foi deputado estadual da ARENA, partido que apoiou a Ditadura Militar) e Delfino Faccina (SEP) seguia na mesma ladainha ridícula…

Que a apresentação da Seleção Soviética era propaganda comunista, a partida não poderia ser no Pacaembu,  era um desrespeito ao Campeonato Paulista, a partida deveria ser em Santos e outras baboseiras desse naipe.

Uma reunião na FPF, colocou-se a situação nos seus devidos lugares: A partida seria no Pacaembu e ponto final.

E os três tristes dirigentes tiveram que engolir mais essa…

Bom, sobre a partida, não teria segredos… O time Soviético podia ser bom no Leste Europeu, mas não era páreo para o poderoso Santos FC.

E numa, segunda feira, lá foi o alvinegro enfrentar os “perigosos comedores de criançinhas, comunistas materialistas e ateus” (conforme a propaganda anti-soviética da época).

Antes da partida, muita festa. Os visitantes entregaram as faixas de tri-campeão paulista ao SFC e aquelas cerimônias de praxe numa partida internacional.

Em campo, o Santos não deu chances à URRS, mas não goleou, 2 a 1 de virada com gols de Pelé e Coutinho!

E assim fecha-se o ano de 1962.

Com o Santos vencendo tudo e a todos… vencendo em São Paulo, vencendo na América do Sul, vencendo na Europa, e vencendo a cegueira política da guerra-fria.

O Santos pela primeira vez, parava uma guerra. A guerra ideológica que alguns dirigentes e políticos mal-intencionados queriam fazer e não conseguiram, pois a arte, o futebol bem jogado sempre esteve acima das ambições políticas dos medíocres.


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Edmar Junior - Blog DNA Santastico

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